Agricultores familiares e pescadores levam experiências do território ao Encontro Estadual de Agroecologia
Observatórios Cabo Frio, Macaé e Rio das Ostras compartilharam experiências sobre agricultura familiar, pesca artesanal, reforma agrária e defesa dos territórios tradicionais durante evento que reuniu dois mil participantes em Silva Jardim.
Por Rio das Ostras - Rede Observação
15/07/26 19h55 - aproximadamente 7 horas
Foto: Arquivo coletivo / Observatório Rio das Ostras
Agricultores familiares de Rio das Ostras, comunidade tradicional de catadores de guaiamum do Chavão, em Cabo Frio, e moradores do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Osvaldo de Oliveira, em Macaé, participaram do V Encontro Estadual de Agroecologia do Rio de Janeiro. A programação reuniu agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais, pesquisadores e instituições para discutir temas como agroecologia, soberania alimentar, justiça climática e defesa dos territórios. A participação ocorreu por meio de articulações da Universidade Federal Fluminense (UFF) e do Projeto de Educação Ambiental (PEA) Rede Observação. O encontro foi realizado entre os dias 26 e 28 de junho, em Silva Jardim.
Organizado pela Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro (AARJ), o evento celebrou os 20 anos da rede e reuniu cerca de duas mil pessoas. A programação incluiu mesas de debate, visitas de campo, feiras de sementes e produtos da agricultura familiar, atividades culturais e rodas de conversa voltadas ao intercâmbio de experiências entre diferentes territórios do estado.
As agricultoras participaram de uma visita ao Sítio Anacreison, da agricultora Aparecida de Oliveira, integrante do Grupo de Trabalho (GT) Mulheres. A atividade apresentou experiências de produção agroecológica, organização do trabalho familiar e os desafios enfrentados pelas mulheres do campo. Para Anderlandia Gomes, o encontro permitiu reconhecer que as dificuldades vividas pelos agricultores familiares são compartilhadas por comunidades de diferentes regiões do estado.
"Foi uma grande troca de conhecimentos. Conhecer pessoas de diferentes regiões, mas que compartilham da mesma cultura e da mesma luta fortalece a nossa caminhada. Percebemos que a agricultura familiar não está morta. Apesar de muitos agricultores desistirem por falta de apoio do poder público, ela continua viva. Ver os feirantes trocando conhecimentos, sementes e experiências revigorou nossas forças. Em todos os lugares sempre haverá um agricultor lutando para produzir alimento."
Integrante do GT Mulheres e da Articulação Serramar, Alcimara Lozan afirmou que a visita ao sítio aproximou a realidade vivida por agricultores de diferentes municípios.
"Lá pude enxergar minha própria história refletida na realidade de outra família agricultora. É uma família que não possui funcionários; eles fazem tudo sozinhos, desde o cultivo até a participação nas feiras. Assim como nós, enfrentam dificuldades para competir com os grandes produtores. A dona Cida comparou seu sítio com a propriedade vizinha, muito mais estruturada, e explicou que essa diferença acontece porque a agricultura familiar não recebe o apoio que deveria do poder público”, afirmou.
Os participantes apresentaram a Carta Política do V Encontro Estadual de Agroecologia do Rio de Janeiro, documento elaborado coletivamente com propostas voltadas à agroecologia, à agricultura familiar, à soberania alimentar e à defesa dos territórios.
Territórios e maretórios em debate
Roda de conversa "Reforma Agrária e Defesa dos Maretórios e Territórios das Comunidades Tradicionais" - Foto: Arquivo coletivo / Observatório Cabo Frio
Representantes dos Observatórios Cabo Frio e Macaé participaram da roda de conversa "Reforma Agrária e Defesa dos Maretórios e Territórios das Comunidades Tradicionais." O debate abordou a relação entre agroecologia, acesso à terra e à água e a garantia dos direitos territoriais. Participantes compartilharam experiências de organização comunitária e discutiram desafios relacionados à permanência nos territórios e à construção de políticas públicas.
A comunidade de catadores de guaiamum do Chavão apresentou a experiência desenvolvida na elaboração do Plano de Gestão Local (PGL) do guaiamum. Também foram apresentados os resultados da mobilização que contribuiu para a publicação das portarias do Ministério do Meio Ambiente que voltaram a permitir a emissão das autorizações individuais para captura da espécie, além das ações de educação ambiental realizadas na comunidade, como o projeto "Água de Hoje é Água de Amanhã", voltado à conservação do Rio São João.
“Foi muito interessante participar, porque essa foi uma experiência nova para mim. Ainda não havia compartilhado esse espaço com o grupo, e foi enriquecedor perceber que, apesar das realidades diferentes, muitas ideias se assemelham à situação que vivemos no Chavão. Cada pessoa tem um saber e uma vivência próprios, o que nos permite conhecer outras perspectivas. Para nós, essa aproximação entre a pesca e a agroecologia representa algo muito significativo, porque envolve diretamente a comunidade, o nosso modo de viver e produzir", diz Alceir França, Presidente da Associação dos Pescadores, Aquicultores e Moradores do Chavão.
Representantes do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Osvaldo de Oliveira, em Macaé, compartilharam a trajetória de organização do assentamento, a produção agroecológica desenvolvida pelas famílias e o protagonismo das mulheres agricultoras na condução das atividades produtivas e na permanência no território.
Agricultores familiares participam da inauguração do Ponto de Cultura Quintal do Pescador
No dia 29 de junho, os agricultores familiares de Cantagalo, em Rio das Ostras, participaram da inauguração do Ponto de Cultura Quintal do Pescador, espaço voltado à valorização da cultura caiçara e da pesca artesanal no município.
Ponto de Cultura Quintal do Pescador - Foto: Arquivo Coletivo / Observatório Rio das Ostras
A programação incluiu a Feira da Agricultura Familiar, exposição de fotografias da comunidade, demonstração de pesca artesanal, exposição de biojoias e o lançamento do livro sobre a pesca artesanal da região, apresentado pelo professor Geraldo Timóteo, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). A inauguração também marcou o reconhecimento de iniciativas dedicadas à preservação da cultura caiçara, da memória social e dos modos de vida tradicionais relacionados à pesca artesanal. Jéssica Manhães, produtora de cosméticos naturais, participou das atividades e destacou a troca de experiências promovida pelo encontro.
"Participar desse momento foi uma experiência muito emocionante. Estar ao lado de outros povos tradicionais fortaleceu nosso sentimento de pertencimento e mostrou que nossos modos de vida, passados de geração em geração, precisam ser valorizados e respeitados. Foi inspirador conhecer um pouco da história da pesca artesanal por meio do livro produzido pelo Pescarte, que registra essa trajetória em fotografias e relatos, e ver o trabalho das artesãs que transformam escamas de peixe em biojoias, além de participar da oficina de confecção dessas peças”, afirmou.
Os agricultores familiares de Rio das Ostras e Macaé, assim como os catadores de guaiamum do Chavão, são grupos prioritários do PEA Rede Observação. Com a metodologia da educação ambiental, o PEA Rede Observação é uma medida de mitigação exigida pelo licenciamento ambiental federal conduzida pelo IBAMA.
A realização do PEA Rede Observação é uma medida de mitigação exigida pelo Licenciamento Ambiental Federal, conduzido pelo IBAMA.